Pesquisar no blog

domingo, 5 de dezembro de 2021

MORTE NA PROSA


Meu vizinho morreu. Ele nem sabia, mas eu fazia muitas preces por ele. Eu queria que ele vivesse, sabe. Todo mundo que sobrevive a alguma coisa muito difícil me incita esperanças. Não é difícil supor o que a morte de alguém me causa - é mais que tristeza, saudade, lamentação e, em situações de muito sofrimento, alívio. É também identificação e medo. Eu não sou melhor ou mais especial do que qualquer ser humano. Você que me lê, meu caro leitor, digo a você: nossas burlas contra o tempo são patéticas. 


Não há nada o que fazer para se viver mais, pois não há prévia do limite da vida. O tempo só se conta para trás, daqui para frente só haverá quimeras. O que se pode fazer é buscar viver melhor.

  

Fiquei pensando em quem irá regar o jardim daquele senhor. Às vezes, o observava cuidando das plantas. Havia sempre com ele a ausência de mais olhares curiosos e outros espíritos jovens abertos às novidades que o tempo carrega. 


Toda novidade é um resumo dos tempos. Existem novidades inventadas no agora e aquelas que atravessam às épocas indetectáveis às juventudes. Quando morre alguém do passado essa sintonia se dissipa e os sinais do que há de novo há muito tempo enfraquecem. Não se achará nos livros, nas pesquisas ou mesmo nas intermináveis conjecturas dos nossos, cada vez mais jovens, doutores.


Estava tudo entregue na prosa. Nas repetições de quem viveu as atualizações do passado. Estava tudo ali, no corriqueiro, no banal. E ainda me preocupa olhar pela janela e ver a solidão daquele jardim. A ausência de novidades nele. 


Jonathan Julio, 17 mai 2021. Morte na prosa.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

EU-POETA-SACI

Eu escrevo para viver E viverei até depois da morte Pela vida de minhas palavras Que nunca esgotam os seus sentidos Eu sou um poeta atrevido...