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quarta-feira, 30 de junho de 2021

O ESTRANHO DE MIM

As vezes sinto saudade de mim

Como o dia seguinte

Sente saudade dos tempos áureos

Como a terra, que pela manhã,

Espera pelo dourado do sol

Após a frieza de noites úmidas e prateadas

Espero de mim o germinar das primaveras

Sem entender as estações,

As ausências e as mudanças

É tudo tão estranho

Sem o viço de ar ingênuo

A beleza fica esperta, sem paúras

Revivi estações e suportei saudades

Acomodou-se o estranho de mim


(Jonathan Julio)

29 Jun 2021

 


quarta-feira, 23 de junho de 2021

RESENHA: O MEU PÉ DE LARANJA LIMA

Ontem finalizei a leitura do livro “O meu pé de laranja lima”, escrito por José Mauro de Vasconcelos. Foi uma leitura bastante agradável e permeada por distintas emoções, como tristeza, raiva, alegria e, sobretudo, ternura - eu diria ser esta a essência do livro: a ternura.

“O meu pé de laranja lima” é um clássico da literatura brasileira, lançado em 1968. No Brasil, esta foi uma época marcada pelo “Golpe/Ditadura Militar” (ver nota) e, até a década de 80, nomeada como os “anos de chumbo”. A opressão e a violência foram marcas sangrentas deste período obscuro e vergonhoso de nosso país. Zé Mauro encontra na escrita um meio de transmitir um sentimento que, segundo este, andava esquecido: a ternura.

O livro conta a história de Zezé, um menino de cinco anos, muito travesso e criativo, que tem como o seu melhor amigo um pé de laranja lima. Zezé é o quarto de cinco filhos, de uma família muito pobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bangu. Seu pai está desempregado e bastante deprimido e sua mãe trabalha fora para sustentar a casa. Com a "ausência” dos pais, o cuidado doméstico e afetivo fica sob responsabilidade dos filhos “mais velhos”. Um contexto de muitas vulnerabilidades e sofrimentos.

Apesar de arteiro e precoce para a sua idade, Zezé é uma criança sensível, e como toda criança, carente de afeto. Os irmãos, em uma condição semelhante a dele, porém um pouco mais “crescidos” e “acostumados”, não dão conta de satisfazer as necessidades afetivas de Zezé. Eles acabam reproduzindo na relação com Zezé a violência do meio onde estão inseridos, com punições severas e agressões verbais e físicas.

Contudo, Zezé mantém dentro de si um sentimento de ternura em relação à família e, principalmente, ao irmão mais novo, o “Rei Luís”, com três anos, como carinhosamente o chama. Através do “faz de conta”, Zezé trama mundos paralelos à sua realidade, onde encontra recursos para suas brincadeiras com o seu irmãozinho.

As fantasias de Zezé permeiam todas as narrativas e é isso que dá leveza ao enredo. Apaixonado pelos "Cowboys” e Índios guerreiros “Apaches e Sioux” do cinema americano e pelas músicas do rádio brasileiro da década de 30, as aventuras da imaginação de Zezé são repletas de referências de filmes e de um lirismo encantador. É nesse mundo colorido, aventureiro e poético que o menino Zezé vai se refugiar após as constantes sovas que levava. A sua fantasia é um ponto de equilíbrio com a dureza do mundo real que o cerca.

É assim que surge “Minguinho” ou, em momentos de muita ternura, “xururuca”, o seu pé de laranja lima. “Minguinho” entende o que Zezé está dizendo e sentindo, tem curiosidade nas histórias e travessuras do menino, o admira e sempre participa de suas aventuras se transformando exatamente naquilo que ele precisa. “Xururuca” simboliza toda a ausência afetiva de Zezé.

Ao longo do enredo, personagens como “Tio Edmundo”, “Professora Cecília Paim”, “Seu Ariovaldo”, o músico ambulante, “Glória”, uma das irmãs mais velhas de Zezé, e “Seu Portuga”, o Portugues que Zezé promete “matar” quando crescer, aparecem como referências importantes de afeto para Zezé. Serão eles que, em meio a tantos maus tratos, negligências e agressões, ajudarão Zezé a manter a ternura dentro de si.

CONCLUSÃO

“O meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, é um clássico da literatura brasileira. Ambientada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bangu, e com uma linguagem regional, simples, a obra integra fantasia e realidade de forma lírica e emocionante.
 
Trata-se também de uma obra autobiográfica que narra parte da primeira infância de Zezé - o então José Mauro de Vasconcelos. Este é o segundo livro da trilogia: O primeiro se chama “Doidão” (1963, retratando o período da adolescência) e o terceiro “Vamos aquecer o sol” (1974, narrando a segunda infância, aos 9 anos).

O enredo conta a história de um menino de cinco anos, muito travesso e criativo, chamado Zezé. Vítima de maus tratos e agressões física e verbal , Zezé se refugia no mundo da fantasia, onde vive suas aventuras e encontra tudo o que precisa, principalmente, afeto. É lá que está “Minguinho”, o seu pé de laranja lima, nos fundos de seu quintal. Ambos desenvolvem uma amizade de muita parceria e amorosidade.

Sentimentos como tristeza, raiva, alegria e ternura, marcaram a minha experiência de leitura da obra. Sem dúvidas este foi um dos livros mais tristes e encantadores que já li. Já estou com saudades do Zezé e jamais o esquecerei.

Me conta aqui, já leu esse livro? O que achou dele?
 
(Jonathan Julio)
20 Jun. 2021
 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

EU VI "DEUS" VIRAR GENTE

Hoje ”fui ao médico”. Experiência nada agradável, mas indispensável. Jamais vou ao médico por vontade própria. É sempre contrariado por alguma dor, desconforto, preocupação ou medo, que atrapalha os meus planos e me obriga a tal submissão.


A prece ao sagrado antes de sair de casa é sempre “que o médico tenha compaixão e seja cuidadoso comigo”. Uma contrição angustiada em favor da benevolência da pessoa humana que, eu sei, habita o “deus-médico”. 


-- “Jonathan Julio”!


Chama a primeira médica. 


Olhar frio, voz indiferente, Deusa poderosa, nem precisou se interessar em saber quem era aquele humano “pecador” em busca de salvação. Ela sabia de tudo, estava no prontuário (letras e números). Lhe interessava a minha doença. Fui me encolhendo, reverenciando-a, “Sim, Doutora”, “Não, Doutora”, pouquíssimas e apressadas palavras, na tentativa desesperada de “merecer cuidado”.


Após sair da sala - já despido daquele cinismo habitual dos “pecadores”, que negam qualquer prazer nos delitos - estava certo de que tinha sido uma péssima consulta e que “não gostei da Doutora”.


O segundo médico chama:


-- “Jonathan Julio”!


Repito todo aquele imbróglio, quase uma reza domesticada. Mas dessa vez “os céus” pareciam ter me ouvido e via-os se abrindo sobre mim. Finalmente um dos deuses me olha com interesse e afeto - nem parecia "deus''. Eu nunca vi os olhos de Deus, portanto, não o posso reconhecer. Só O acredito. A gente só sente e reconhece afeto no olhar de outro humano.


-- E aí, Jonathan? Em que posso te ajudar? Você tem quantos anos mesmo? Trabalha? De quê?...


Perguntava com interesse e curiosidade. Oh, céus! Um milagre acaba de acontecer!


Cessou-se a reza. Eu vi "deus" virar gente. 


-- Eu vou te ajudar!


Aquelas palavras foram tão confortantes e alentadoras. E mesmo que ele não conseguisse, efetivamente, me ajudar, ainda sim, eu confiaria em suas palavras cheias de ternura. Parecia que ele estava vendo e entendendo toda a dor e sofrimento dentro de mim. 


Mas, quando ele cerrou o punho e lentamente o estendeu em minha direção, eu temi. Era tão estranho aquele movimento. Eu não sabia o que fazer.


Mas, quando o seu punho paralisou no ar, à espera de alguma resposta, entendi tudo: 

“o verbo se fez carne e habitou entre nós”.


Era o “deus-médico” em carne e osso manifesto diante de mim.


Cerrei o meu punho direito e, lentamente, toquei no seu punho. Selando aquele pacto de cuidado afetivo que eu tanto precisava. Saí do consultório com o sorriso mais largo do mundo nos olhos. Me sentindo gente, ao invés de um vil pecador. 


Tudo fica melhor com afeto.


(Jonathan Julio)

18 Jun. 2021



domingo, 13 de junho de 2021

QUANDO O SOL NÃO VEM

Não dá pra ficar esperando o sol vir buscar em casa todo dia. Tem dias que ele está subentendido nas nuvens. Não bate na janela. Portanto, gosto de me levantar e ir. A gente costuma se encontrar no caminho.

(Jonathan Julio)
14 Jun. 2021

 

EU-POETA-SACI

Eu escrevo para viver E viverei até depois da morte Pela vida de minhas palavras Que nunca esgotam os seus sentidos Eu sou um poeta atrevido...