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segunda-feira, 21 de junho de 2021

EU VI "DEUS" VIRAR GENTE

Hoje ”fui ao médico”. Experiência nada agradável, mas indispensável. Jamais vou ao médico por vontade própria. É sempre contrariado por alguma dor, desconforto, preocupação ou medo, que atrapalha os meus planos e me obriga a tal submissão.


A prece ao sagrado antes de sair de casa é sempre “que o médico tenha compaixão e seja cuidadoso comigo”. Uma contrição angustiada em favor da benevolência da pessoa humana que, eu sei, habita o “deus-médico”. 


-- “Jonathan Julio”!


Chama a primeira médica. 


Olhar frio, voz indiferente, Deusa poderosa, nem precisou se interessar em saber quem era aquele humano “pecador” em busca de salvação. Ela sabia de tudo, estava no prontuário (letras e números). Lhe interessava a minha doença. Fui me encolhendo, reverenciando-a, “Sim, Doutora”, “Não, Doutora”, pouquíssimas e apressadas palavras, na tentativa desesperada de “merecer cuidado”.


Após sair da sala - já despido daquele cinismo habitual dos “pecadores”, que negam qualquer prazer nos delitos - estava certo de que tinha sido uma péssima consulta e que “não gostei da Doutora”.


O segundo médico chama:


-- “Jonathan Julio”!


Repito todo aquele imbróglio, quase uma reza domesticada. Mas dessa vez “os céus” pareciam ter me ouvido e via-os se abrindo sobre mim. Finalmente um dos deuses me olha com interesse e afeto - nem parecia "deus''. Eu nunca vi os olhos de Deus, portanto, não o posso reconhecer. Só O acredito. A gente só sente e reconhece afeto no olhar de outro humano.


-- E aí, Jonathan? Em que posso te ajudar? Você tem quantos anos mesmo? Trabalha? De quê?...


Perguntava com interesse e curiosidade. Oh, céus! Um milagre acaba de acontecer!


Cessou-se a reza. Eu vi "deus" virar gente. 


-- Eu vou te ajudar!


Aquelas palavras foram tão confortantes e alentadoras. E mesmo que ele não conseguisse, efetivamente, me ajudar, ainda sim, eu confiaria em suas palavras cheias de ternura. Parecia que ele estava vendo e entendendo toda a dor e sofrimento dentro de mim. 


Mas, quando ele cerrou o punho e lentamente o estendeu em minha direção, eu temi. Era tão estranho aquele movimento. Eu não sabia o que fazer.


Mas, quando o seu punho paralisou no ar, à espera de alguma resposta, entendi tudo: 

“o verbo se fez carne e habitou entre nós”.


Era o “deus-médico” em carne e osso manifesto diante de mim.


Cerrei o meu punho direito e, lentamente, toquei no seu punho. Selando aquele pacto de cuidado afetivo que eu tanto precisava. Saí do consultório com o sorriso mais largo do mundo nos olhos. Me sentindo gente, ao invés de um vil pecador. 


Tudo fica melhor com afeto.


(Jonathan Julio)

18 Jun. 2021



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