Ontem finalizei a leitura do livro “O meu pé de laranja lima”, escrito por José Mauro de Vasconcelos. Foi uma leitura bastante agradável e permeada por distintas emoções, como tristeza, raiva, alegria e, sobretudo, ternura - eu diria ser esta a essência do livro: a ternura.
“O meu pé de laranja lima” é um clássico da literatura brasileira, lançado em 1968. No Brasil, esta foi uma época marcada pelo “Golpe/Ditadura Militar” (ver nota) e, até a década de 80, nomeada como os “anos de chumbo”. A opressão e a violência foram marcas sangrentas deste período obscuro e vergonhoso de nosso país. Zé Mauro encontra na escrita um meio de transmitir um sentimento que, segundo este, andava esquecido: a ternura.
O livro conta a história de Zezé, um menino de cinco anos, muito travesso e criativo, que tem como o seu melhor amigo um pé de laranja lima. Zezé é o quarto de cinco filhos, de uma família muito pobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bangu. Seu pai está desempregado e bastante deprimido e sua mãe trabalha fora para sustentar a casa. Com a "ausência” dos pais, o cuidado doméstico e afetivo fica sob responsabilidade dos filhos “mais velhos”. Um contexto de muitas vulnerabilidades e sofrimentos.
Apesar de arteiro e precoce para a sua idade, Zezé é uma criança sensível, e como toda criança, carente de afeto. Os irmãos, em uma condição semelhante a dele, porém um pouco mais “crescidos” e “acostumados”, não dão conta de satisfazer as necessidades afetivas de Zezé. Eles acabam reproduzindo na relação com Zezé a violência do meio onde estão inseridos, com punições severas e agressões verbais e físicas.
Contudo, Zezé mantém dentro de si um sentimento de ternura em relação à família e, principalmente, ao irmão mais novo, o “Rei Luís”, com três anos, como carinhosamente o chama. Através do “faz de conta”, Zezé trama mundos paralelos à sua realidade, onde encontra recursos para suas brincadeiras com o seu irmãozinho.
As fantasias de Zezé permeiam todas as narrativas e é isso que dá leveza ao enredo. Apaixonado pelos "Cowboys” e Índios guerreiros “Apaches e Sioux” do cinema americano e pelas músicas do rádio brasileiro da década de 30, as aventuras da imaginação de Zezé são repletas de referências de filmes e de um lirismo encantador. É nesse mundo colorido, aventureiro e poético que o menino Zezé vai se refugiar após as constantes sovas que levava. A sua fantasia é um ponto de equilíbrio com a dureza do mundo real que o cerca.
É assim que surge “Minguinho” ou, em momentos de muita ternura, “xururuca”, o seu pé de laranja lima. “Minguinho” entende o que Zezé está dizendo e sentindo, tem curiosidade nas histórias e travessuras do menino, o admira e sempre participa de suas aventuras se transformando exatamente naquilo que ele precisa. “Xururuca” simboliza toda a ausência afetiva de Zezé.
Ao longo do enredo, personagens como “Tio Edmundo”, “Professora Cecília Paim”, “Seu Ariovaldo”, o músico ambulante, “Glória”, uma das irmãs mais velhas de Zezé, e “Seu Portuga”, o Portugues que Zezé promete “matar” quando crescer, aparecem como referências importantes de afeto para Zezé. Serão eles que, em meio a tantos maus tratos, negligências e agressões, ajudarão Zezé a manter a ternura dentro de si.
CONCLUSÃO
“O meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, é um clássico da literatura brasileira. Ambientada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bangu, e com uma linguagem regional, simples, a obra integra fantasia e realidade de forma lírica e emocionante.
Trata-se também de uma obra autobiográfica que narra parte da primeira infância de Zezé - o então José Mauro de Vasconcelos. Este é o segundo livro da trilogia: O primeiro se chama “Doidão” (1963, retratando o período da adolescência) e o terceiro “Vamos aquecer o sol” (1974, narrando a segunda infância, aos 9 anos).
O enredo conta a história de um menino de cinco anos, muito travesso e criativo, chamado Zezé. Vítima de maus tratos e agressões física e verbal , Zezé se refugia no mundo da fantasia, onde vive suas aventuras e encontra tudo o que precisa, principalmente, afeto. É lá que está “Minguinho”, o seu pé de laranja lima, nos fundos de seu quintal. Ambos desenvolvem uma amizade de muita parceria e amorosidade.
Sentimentos como tristeza, raiva, alegria e ternura, marcaram a minha experiência de leitura da obra. Sem dúvidas este foi um dos livros mais tristes e encantadores que já li. Já estou com saudades do Zezé e jamais o esquecerei.
Me conta aqui, já leu esse livro? O que achou dele?
(Jonathan Julio)
20 Jun. 2021