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domingo, 5 de dezembro de 2021

MORTE NA PROSA


Meu vizinho morreu. Ele nem sabia, mas eu fazia muitas preces por ele. Eu queria que ele vivesse, sabe. Todo mundo que sobrevive a alguma coisa muito difícil me incita esperanças. Não é difícil supor o que a morte de alguém me causa - é mais que tristeza, saudade, lamentação e, em situações de muito sofrimento, alívio. É também identificação e medo. Eu não sou melhor ou mais especial do que qualquer ser humano. Você que me lê, meu caro leitor, digo a você: nossas burlas contra o tempo são patéticas. 


Não há nada o que fazer para se viver mais, pois não há prévia do limite da vida. O tempo só se conta para trás, daqui para frente só haverá quimeras. O que se pode fazer é buscar viver melhor.

  

Fiquei pensando em quem irá regar o jardim daquele senhor. Às vezes, o observava cuidando das plantas. Havia sempre com ele a ausência de mais olhares curiosos e outros espíritos jovens abertos às novidades que o tempo carrega. 


Toda novidade é um resumo dos tempos. Existem novidades inventadas no agora e aquelas que atravessam às épocas indetectáveis às juventudes. Quando morre alguém do passado essa sintonia se dissipa e os sinais do que há de novo há muito tempo enfraquecem. Não se achará nos livros, nas pesquisas ou mesmo nas intermináveis conjecturas dos nossos, cada vez mais jovens, doutores.


Estava tudo entregue na prosa. Nas repetições de quem viveu as atualizações do passado. Estava tudo ali, no corriqueiro, no banal. E ainda me preocupa olhar pela janela e ver a solidão daquele jardim. A ausência de novidades nele. 


Jonathan Julio, 17 mai 2021. Morte na prosa.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

LUCA: AMIZADES E TRANFORMAÇÕES

INTRODUÇÃO

No último final de semana, me emocionei com o filme “Luca”. A mais recente animação da Disney e da Pixar, conta a aventura de um menino peixe, o Luca, que resolve se arriscar no temido mundo dos humanos para viver um sonho de conhecer o mundo. Na companhia dos seus novos amigos, Alberto e Giulia, Luca vai descobrir o pior e o melhor do mundo e precisará, literalmente, silenciar os seus medos e culpas para conquistar a sua “liberdade”.


O ENREDO

O filme é ambientado em um vilarejo na Itália, “Portorosso”, durante o verão - acredito que de propósito, o mês de estreia da animação, junho (18), coincide com o início do verão Italiano. Referências como a gastronomia Italiana aparecem o tempo todo no filme, como por exemplo, gelato, macaron al pesto e peixe.

O enredo conta a história de Luca Paguro, um adolescente de 13 anos, que mora com os pais e a avó materna em um lugar pacato, sem escola, sem atrativos, sem diversão ou amigos, no fundo do mar. Todos eles pertencem a uma espécie de animais marinhos bastante temida pelos humanos. Luca trabalha como uma espécie de “pastor de peixes-cabras” da família.

Sempre obediente, Luca tem na família todos os seus parâmetros a respeito do mundo. Os pais de Luca, querendo protegê-lo dos perigos do mundo, reforçaram regras como nunca subir a superfície do mar e sempre fugir dos barcos que se aproximassem. De fato, havia uma lenda entre os humanos, de que a espécie de Luca eram monstros perigosos e, portanto, deveriam ser mortos. Somente a avó materna de Luca tinha uma perspectiva positivamente diferente a respeito da superfície e lhe contou que já esteve lá.

Luca acaba internalizando todo este medo e se esforça para obedecer aos pais, principalmente a mãe que é bastante controladora. Mas, todo esse medo dá lugar a uma grande curiosidade ao conhecer Alberto Scorfano, da mesma espécie. Alberto é também um adolescente e vive na superfície em um esconderijo longe dos humanos. Após o sumiço do de seu pai, Alberto, precisa se virar sozinho. É nesse encontro, observando a curiosidade de Luca, que Alberto o “puxa” para fora daquele mundo tão desinteressante e sem perspectivas.

Tomado pelo desespero em ter quebrado as regras de sua família, Luca começa a experimentar sensações nunca antes sentidas. Alberto começa a “normalizar” para Luca toda aquela experiência. Ensina-o a identificar as suas preocupações e medos, dando a essas sensações o nome de “Bruno” e, todas as vezes que essa voz falasse, que a ordenasse: “Silêncio, Bruno!”. É aí que nasce uma grande amizade. Ambos começam a sonhar juntos e, então, resolvem encarar o vilarejo “Portorosso” - onde moram os humanos - em busca do que mais queriam: conseguir uma “Vespa” (um tipo de motocicleta) para conhecer o mundo.

Neste vilarejo, os amigos Luca e Alberto, terão de lidar com o pior e o melhor dos humanos. Fora da água, os seus corpos marinhos se transformam em corpos humanos. Porém, ao menor contato com a água eles retornam a forma de peixes. Eles precisam tomar muito cuidado para não serem descobertos e mortos.

Foi nesse lugar que eles conheceram Giulia Marcovaldo - filha de um pescador rude e grandalhão, que sonha em capturar um monstro marinho. Giulia, também adolescente, é uma menina muito esperta e corajosa, filha de pais separados, mora com a mãe e passa as férias com o pai, ajudando-o a vender peixes no vilarejo durante o verão. Após salvar Luca e Alberto de seu arqui-inimigo, o malvado Ercole Visconti, uma grande amizade e parceria se inicia - há muito tempo Giulia tenta vencer Ercole no “Portorosso Cup Triathlon”, uma competição de triatlo local. Giulia diz uma frase emocionante: “os excluídos têm sempre que se ajudar”. Assim, os três amigos resolvem se unir para ganhar a competição.

ANÁLISES

O desejo e o medo - conflito arcaico da espécie humana - são sensações centrais na narrativa dos personagens. É a representação deste conflito - tão comum a nós espectadores - o que, essencialmente, nos conecta aos personagens. O desejo nos mantém em movimento e o medo nos ajuda a avaliar os riscos e a se proteger - ambos são indispensáveis e precisam estar em alternância numa tentativa de equilíbrio.

O desejo como força psico-orgânica motriz (que se movimenta) em direção aos objetos no mundo e o medo como produto da cultura que demarca a nossa identidade e relações sociais, se inter-relacionam em um conflito que se perpetua à medida que nos desenvolvemos. Isso significa dizer que o medo sempre está presente nas escolhas que fazemos ou deixamos de fazer.

Os pais de Luca, em especial a mãe, simbolizam a função/ação do medo: preservação, proteção, censura e controle. Eles transmitem para o filho os seus medos e ansiedades para tentar protegê-lo do perigo do mundo. Isso é um ponto delicado e questionável, devido Luca estar em uma fase do desenvolvimento humano, a adolescência, onde a busca por uma identidade que se individualize da referência familiar e a descoberta de outras perspectivas de mundos, através dos pares (outros adolescentes) é fundamental. Os pais de Luca não conseguem se dar conta da ausência dos recursos que Luca precisava para se desenvolver de maneira saudável.

Contrapondo a perspectiva dos pais de Luca , a avó materna simboliza a função/ação do desejo: transformação, mudança, liberdade e prazer. Pelo fato de ter experimentado descobertas prazerosas fora daquele mundo familiar, a avó de Luca, indiretamente, estimula e apoia o neto na aventura em busca de novas experiências e desenvolvimento.

No que se refere a pautas sociais, a animação não faz referência direta à este ou aquele grupo minorizado. Inspirado nas experiências de vida do Diretor Enrico Casarosa, o mesmo afirma que o filme é sobre a amizade na adolescência, fora do contexto familiar, e sobre as transformações que o contato com outras perspectivas de mundo provocam em nossa identidade. Casarosa reforça que também tem a ver com sair da zona de conforto, viver novas experiências e ser mais corajoso. Com isso, em se tratando de uma obra de ficção inspirada em uma história real - portanto, sem uma compromisso factual -, distintos desdobramentos podem ser dados às discussões a respeito do filme em relação às pautas sociais como feminismo, relações raciais, grupos LGBTQIA +, educação e etc.


RESUMINDO

“Luca” é um o longa-metragem da Disney e da Pixar, ambientado no verão da Riviera Italiana e que narra a aventura do garoto Luca, junto de seus novos amigos, Alberto e Giulia, em busca de seus sonhos. Um segredo pode atrapalhar os planos dos três amigos, Luca e Alberto escondem que, abaixo da superfície da água, são monstros marinhos muito temidos pelos humanos daquela cidade.

Discussões a respeito das características da adolescência como, por exemplo, o distanciamento do grupo familiar e a aproximação dos pares (grupos com outros adolescentes), o excesso de proteção e controle dos pais e o conflito entre medo e desejo são analisados no filme.

A animação deixa clara uma mensagem de que é preciso superar o medo e, às vezes, sair da zona de conforto para conhecer novas possibilidades, mais significativas e satisfatórias, de vida. Mostra também o poder transformador da amizade como uma ponte entre o conhecido e o desconhecido. Os amigos são fundamentais para o nosso desenvolvimento.


PAPO DE BASTIDOR

Espero que tenham gostado desta resenha e quero que compartilhem aqui comigo as suas opiniões a respeito do filme e desta análise. Quero saber de tudo! Já adianto a vocês que estou pensando em fazer uma resenha/análise de um filme nacional que gosto muito, chamado “Boa Sorte”.

Este filme tem como temática central o tratamento da dependência química e seus atravessamentos - este é um tema com o qual, há algum tempo trabalho enquanto Psicólogo. Ele conta a história de Judite e João, dois jovens internados em uma Clínica Psiquiátrica e que se apaixonam. Além da dependência química, Judite é portadora de HIV e, por não haverem mais propostas terapêuticas de tratamento, tem um enorme risco de morte. Ambos viverão uma paixão intensa que mudará o sentido de suas vidas.

Que história, né? É um filme com muitas críticas ao modelo de assistência manicomial e discussões a respeito de direitos humanos da pessoa portadora de doenças psiquiátricas proposta pela Reforma Psiquiátrica e pela Luta Antimanicomial. e estou revendo-o para fazer um texto daqueles pra vocês.

Com ternura, pra você, JJ.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

ATYPICAL: ESTRÉIA DA TEMPORADA FINAL

Vida adulta, independente e cheia de incertezas à vista!


A série queridinha de muitos, “Atypical”, já tem data de estreia da última temporada na @Netflix : 9 de julho. E o drama da temporada são os desafios e escolhas que permeiam a vida adulta.


Os irmãos, Casey e Sam estão saindo de casa para uma vida mais independente. A família Gardner, enfim, tomará rumos decisivos que transformarão as suas vidas.


Conflitos entre zonas de conforto e o medo de novas experiências aparecem como dilemas a serem superados pelos personagens. Sam, o jovem portador de autismo, sente-se inseguro em relação às escolhas profissionais e teme seguir o seu coração. Com mais autonomia, agora morando com o seu melhor amigo Zahid, Sam precisará lidar com muitos desafios e o medo de falhar em suas escolhas.


Já Casey, vai lidar com os estressores relacionados à expressão de sua orientação sexual. Apesar dos conflitos vividos, a personagem mantém um espírito impetuoso e ajudará Sam em suas incertezas.


Quanto ao casal, Elsa e Doug, pais de Casey e Sam, principalmente a mãe, terão de se adaptar a uma nova realidade, o ninho vazio, e com os novos limites na relação com os filhos.


Essa temporada promete ser emocionante!


Gostou da novidade? Se você é fã da série, espalha pra geraaal!


Pra você, JJ.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

O ESTRANHO DE MIM

As vezes sinto saudade de mim

Como o dia seguinte

Sente saudade dos tempos áureos

Como a terra, que pela manhã,

Espera pelo dourado do sol

Após a frieza de noites úmidas e prateadas

Espero de mim o germinar das primaveras

Sem entender as estações,

As ausências e as mudanças

É tudo tão estranho

Sem o viço de ar ingênuo

A beleza fica esperta, sem paúras

Revivi estações e suportei saudades

Acomodou-se o estranho de mim


(Jonathan Julio)

29 Jun 2021

 


quarta-feira, 23 de junho de 2021

RESENHA: O MEU PÉ DE LARANJA LIMA

Ontem finalizei a leitura do livro “O meu pé de laranja lima”, escrito por José Mauro de Vasconcelos. Foi uma leitura bastante agradável e permeada por distintas emoções, como tristeza, raiva, alegria e, sobretudo, ternura - eu diria ser esta a essência do livro: a ternura.

“O meu pé de laranja lima” é um clássico da literatura brasileira, lançado em 1968. No Brasil, esta foi uma época marcada pelo “Golpe/Ditadura Militar” (ver nota) e, até a década de 80, nomeada como os “anos de chumbo”. A opressão e a violência foram marcas sangrentas deste período obscuro e vergonhoso de nosso país. Zé Mauro encontra na escrita um meio de transmitir um sentimento que, segundo este, andava esquecido: a ternura.

O livro conta a história de Zezé, um menino de cinco anos, muito travesso e criativo, que tem como o seu melhor amigo um pé de laranja lima. Zezé é o quarto de cinco filhos, de uma família muito pobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bangu. Seu pai está desempregado e bastante deprimido e sua mãe trabalha fora para sustentar a casa. Com a "ausência” dos pais, o cuidado doméstico e afetivo fica sob responsabilidade dos filhos “mais velhos”. Um contexto de muitas vulnerabilidades e sofrimentos.

Apesar de arteiro e precoce para a sua idade, Zezé é uma criança sensível, e como toda criança, carente de afeto. Os irmãos, em uma condição semelhante a dele, porém um pouco mais “crescidos” e “acostumados”, não dão conta de satisfazer as necessidades afetivas de Zezé. Eles acabam reproduzindo na relação com Zezé a violência do meio onde estão inseridos, com punições severas e agressões verbais e físicas.

Contudo, Zezé mantém dentro de si um sentimento de ternura em relação à família e, principalmente, ao irmão mais novo, o “Rei Luís”, com três anos, como carinhosamente o chama. Através do “faz de conta”, Zezé trama mundos paralelos à sua realidade, onde encontra recursos para suas brincadeiras com o seu irmãozinho.

As fantasias de Zezé permeiam todas as narrativas e é isso que dá leveza ao enredo. Apaixonado pelos "Cowboys” e Índios guerreiros “Apaches e Sioux” do cinema americano e pelas músicas do rádio brasileiro da década de 30, as aventuras da imaginação de Zezé são repletas de referências de filmes e de um lirismo encantador. É nesse mundo colorido, aventureiro e poético que o menino Zezé vai se refugiar após as constantes sovas que levava. A sua fantasia é um ponto de equilíbrio com a dureza do mundo real que o cerca.

É assim que surge “Minguinho” ou, em momentos de muita ternura, “xururuca”, o seu pé de laranja lima. “Minguinho” entende o que Zezé está dizendo e sentindo, tem curiosidade nas histórias e travessuras do menino, o admira e sempre participa de suas aventuras se transformando exatamente naquilo que ele precisa. “Xururuca” simboliza toda a ausência afetiva de Zezé.

Ao longo do enredo, personagens como “Tio Edmundo”, “Professora Cecília Paim”, “Seu Ariovaldo”, o músico ambulante, “Glória”, uma das irmãs mais velhas de Zezé, e “Seu Portuga”, o Portugues que Zezé promete “matar” quando crescer, aparecem como referências importantes de afeto para Zezé. Serão eles que, em meio a tantos maus tratos, negligências e agressões, ajudarão Zezé a manter a ternura dentro de si.

CONCLUSÃO

“O meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, é um clássico da literatura brasileira. Ambientada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bangu, e com uma linguagem regional, simples, a obra integra fantasia e realidade de forma lírica e emocionante.
 
Trata-se também de uma obra autobiográfica que narra parte da primeira infância de Zezé - o então José Mauro de Vasconcelos. Este é o segundo livro da trilogia: O primeiro se chama “Doidão” (1963, retratando o período da adolescência) e o terceiro “Vamos aquecer o sol” (1974, narrando a segunda infância, aos 9 anos).

O enredo conta a história de um menino de cinco anos, muito travesso e criativo, chamado Zezé. Vítima de maus tratos e agressões física e verbal , Zezé se refugia no mundo da fantasia, onde vive suas aventuras e encontra tudo o que precisa, principalmente, afeto. É lá que está “Minguinho”, o seu pé de laranja lima, nos fundos de seu quintal. Ambos desenvolvem uma amizade de muita parceria e amorosidade.

Sentimentos como tristeza, raiva, alegria e ternura, marcaram a minha experiência de leitura da obra. Sem dúvidas este foi um dos livros mais tristes e encantadores que já li. Já estou com saudades do Zezé e jamais o esquecerei.

Me conta aqui, já leu esse livro? O que achou dele?
 
(Jonathan Julio)
20 Jun. 2021
 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

EU VI "DEUS" VIRAR GENTE

Hoje ”fui ao médico”. Experiência nada agradável, mas indispensável. Jamais vou ao médico por vontade própria. É sempre contrariado por alguma dor, desconforto, preocupação ou medo, que atrapalha os meus planos e me obriga a tal submissão.


A prece ao sagrado antes de sair de casa é sempre “que o médico tenha compaixão e seja cuidadoso comigo”. Uma contrição angustiada em favor da benevolência da pessoa humana que, eu sei, habita o “deus-médico”. 


-- “Jonathan Julio”!


Chama a primeira médica. 


Olhar frio, voz indiferente, Deusa poderosa, nem precisou se interessar em saber quem era aquele humano “pecador” em busca de salvação. Ela sabia de tudo, estava no prontuário (letras e números). Lhe interessava a minha doença. Fui me encolhendo, reverenciando-a, “Sim, Doutora”, “Não, Doutora”, pouquíssimas e apressadas palavras, na tentativa desesperada de “merecer cuidado”.


Após sair da sala - já despido daquele cinismo habitual dos “pecadores”, que negam qualquer prazer nos delitos - estava certo de que tinha sido uma péssima consulta e que “não gostei da Doutora”.


O segundo médico chama:


-- “Jonathan Julio”!


Repito todo aquele imbróglio, quase uma reza domesticada. Mas dessa vez “os céus” pareciam ter me ouvido e via-os se abrindo sobre mim. Finalmente um dos deuses me olha com interesse e afeto - nem parecia "deus''. Eu nunca vi os olhos de Deus, portanto, não o posso reconhecer. Só O acredito. A gente só sente e reconhece afeto no olhar de outro humano.


-- E aí, Jonathan? Em que posso te ajudar? Você tem quantos anos mesmo? Trabalha? De quê?...


Perguntava com interesse e curiosidade. Oh, céus! Um milagre acaba de acontecer!


Cessou-se a reza. Eu vi "deus" virar gente. 


-- Eu vou te ajudar!


Aquelas palavras foram tão confortantes e alentadoras. E mesmo que ele não conseguisse, efetivamente, me ajudar, ainda sim, eu confiaria em suas palavras cheias de ternura. Parecia que ele estava vendo e entendendo toda a dor e sofrimento dentro de mim. 


Mas, quando ele cerrou o punho e lentamente o estendeu em minha direção, eu temi. Era tão estranho aquele movimento. Eu não sabia o que fazer.


Mas, quando o seu punho paralisou no ar, à espera de alguma resposta, entendi tudo: 

“o verbo se fez carne e habitou entre nós”.


Era o “deus-médico” em carne e osso manifesto diante de mim.


Cerrei o meu punho direito e, lentamente, toquei no seu punho. Selando aquele pacto de cuidado afetivo que eu tanto precisava. Saí do consultório com o sorriso mais largo do mundo nos olhos. Me sentindo gente, ao invés de um vil pecador. 


Tudo fica melhor com afeto.


(Jonathan Julio)

18 Jun. 2021



domingo, 13 de junho de 2021

QUANDO O SOL NÃO VEM

Não dá pra ficar esperando o sol vir buscar em casa todo dia. Tem dias que ele está subentendido nas nuvens. Não bate na janela. Portanto, gosto de me levantar e ir. A gente costuma se encontrar no caminho.

(Jonathan Julio)
14 Jun. 2021

 

domingo, 30 de maio de 2021

O POETA E A TAL FLOR ROXA

 

O poeta desbrava o mato para ver de perto a flor roxa. Aquela tal, que tantos dizem nascer no coração dos trouxas.

Diante do perigo corrido, o poeta ter assumido estes riscos, a tal flor só pode ter nascido no coração do poeta.

Ou no coração do… 

 

(Jonathan Julio)

30 mai 2021











sábado, 29 de maio de 2021

DAS VÍCERAS AOS VERSOS

 
Sou demasiado fático
Da prosa
E, antagônico, de silêncio sepulcral
em eventuais mortes.
Acho elegante a discrição, as vezes eu a uso
Depois a acho chata, tediosa, me contradigo
Viro do avesso
Das vísceras, dos versos, das tripas coração.
Deixo expostas as vísceras 
Porque corastes? Eu vi.
Tratas de te despires, ou saia daqui!

Jonathan Julio
29 mai 2021



sexta-feira, 21 de maio de 2021

ALEGRIA BOBA

A nossa alegria é tão boba

É café com pão

Roupas no varal


É samba no rádio

Pressão na panela

Tem sol na janela

O mundo é quintal



(Jonathan Julio)

11 mai 2021


TEMPORÁRIOS

 

Tenha paciência

É só mais um daqueles dias

Passageiros

No máximo, temporários

Como tu.


(Jonathan Julio)

21 mai 2021 



segunda-feira, 19 de abril de 2021

EU-POETA-SACI

Eu escrevo para viver
E viverei até depois da morte
Pela vida de minhas palavras
Que nunca esgotam os seus sentidos

Eu sou um poeta atrevido
Tramo enredos
Para deitar em rede os sentimentos
Não sou só um escrevente
Sou um sentinte

Sentir é vasto
Por isso poemo
Para dar contornos ao que está difuso
Velejar aos ventos

Eu sou um poeta travesso
Poeta-saci
Percorro terrenos
Provoco confusões
Assusto viajantes
Sou indecifrável
Tacanho por esperteza
Grande por instinto
Por inteiro eu-poeta-saci


(Jonathan Julio)
19 abr 2021.


quarta-feira, 14 de abril de 2021

GOTA

Na cheia
Às margens
Beira em gota

Gota

        Gota
                Gota

Represa no corpo
Sufoco, sufoco
E pela janela

                 Gota
        Gota
Gota

Escorre ao leito
À foz
Destinos meandros

Gota
        Gota
                Gota

Rebenta a barreira
Revolta, atroz
Refaz as memórias

                Gota
        Gota
Gota

Na baixa do rio
Sossegam os leitos
Calmaria
Gota, gota, gota...

(Jonathan Julio)
14 abr 2021

quinta-feira, 8 de abril de 2021

ORVALHO

Não há tempestades
Molharei sem fechar os tempos
No esquecer das noites 

Vou caindo na cegueira

Frio

Me carregam os ventos

No inverno das ausências


Repouso em gotas

Vim sereno

Um rio em verde

Sem correr

Sem desaguar

Escorregando 


Abundante

No mato

Ao sol

Vento de novo

Esperança pueril

Um mistério no tempo.


(Jonathan Julio)

 08 Abr. 21


domingo, 1 de novembro de 2020

SOLIDÃO

 

Ontem à noite, como habitualmente, me chamei para sair a sós. Avisei a algumas pessoas - eu não queria parecer estar adorando fazer aquilo sozinho, rs. Mas foi um sucesso, o plano deu certo!

Eu não gosto, carente e patético que ora sou - sobretudo humano -, de me sentir sozinho. Muito embora, acho de um refino a habilidade de saber viver e ser feliz na lacuna que é a eventual ausência de outras companhias. Digo outras, porque "estar só" nunca é literal - mesmo na ausência física de outras pessoas, há sempre a presença/companhia "oculta" de tudo o que carregamos de nossas interações. Nossos afetos, dores, memórias, vulnerabilidades e impressões. Para uns, fantasmas assombrosos, para outros, entidades divinas e sagradas - há quem corra e há quem às invoquem.

A solidão nunca é vazia, com ela sempre há alguma coisa. Há quem a sinta pela dor do abandono, há quem a use como esquiva dos medos, e também há quem a tolere por coragem e desejo.

(Jonathan Julio)
Nov. 2020

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

CAPSULAS FLUTUANTES COM FLORES DENTRO

 

Na quarta, andando pela Gonçalves Dias reparei nas cápsulas flutuantes com flores dentro". Linda toda essa artificialidade. 


Fiquei pensando nas flores que não conseguem mais, naturalmente, viver em nossos quintais, em nossas janelas e em nossas ruas. A gente internalizou o princípio capitalista de que podemos industrializar as nossas necessidades e consumi-las. Aliás, consumir... como consumir é estético.


Em ruas incapazes de cultivar flores, é bonito parecer que elas estão lá.


(Jonathan Julio)

Out. 2020


quarta-feira, 20 de maio de 2020

SUCO DE LARANJA

Um dia a gente se forma numa laranja: cheios de sementes, caldo e vitamina C.

Mas a vida é braço que nos espreme - esmagando o que há dentro e fora. Ficamos um bagaço. Mas que delícia é um bom suco de laranja!

São assim as nossas aprendizagens mais importantes e preciosas: se extraem dos processos mais sofridos do viver.

(Jonathan Julio)
20 Mai. 2020








domingo, 26 de abril de 2020

CAÍ NUM BUEIRO

Estávamos lutando para fazer 2020 acontecer e de repente afundamos com uma das pernas num bueiro de rua com a tampa em falso - foi assim que eu caí, agora de manhã, enquanto caminhava distraído na rua.

Eu levantei. Com o joelho e a mão ralada, roupa suja e poída, sem meu "spray de garganta" - este havia caído lá embaixo e a água o levou... Aff! Segui o meu rumo. Meu preto velho (meu pai, que caminhava comigo) sugeriu: "vamos voltar?". Você acha?

Eu não ia deixar que um bueiro, que nem estava nos meus planos, resumisse a minha manhã de tão agradabilíssima caminhada ao sol. Dei aquela leve lamentada, básica e de lei, dei umas batidinhas na roupa suja e continuei a rota - senti que dava para continuar.

Durante o caminho eu não me esqueci que cai no bueiro - nem podia, eu estava sentindo um leve desconforto onde ralou. Mas, eu também me distraí com a paisagem, com os assuntos do meu preto velho, e reforcei um "aprendizado": "Bueiros são perigosos, melhor se afastar". Fiz o que tinha que fazer, como eu pude fazer e, aí sim, eu voltei pra casa para contar a novidade infeliz para vcs.

Fiquei a pensar sobre a tragédia que estamos vivenciando e o bueiro. Nas pessoas que ficam mais paralisadas pelo horror e desespero da ideia de ter caído em um bueiro, do que pelas reais consequências disso. Me dei conta do que fiz nessa situação: foquei no que estava planejado antes do bueiro, no que eu estava sentindo naquele momento e no como eu poeira adaptar os meus planos depois de ter caído. Gostei disso. As coisas não mudam por mágica, aprender a se adaptar também é preciso!

(Jonathan Julio)

26 Abr. 2020





quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

QUE DELÍCIA DE VIVER


Que delícia de viver

Tudo isso a pertencer

Vento livre a me ter

Que beleza


Que delícia de viver

Meus pés nus a percorrer

Chão materno prenhe está

Somos filhos


Que delícia de viver

Folhas soltas a voar

Tudo novo se fará

Reconheço


Que delícia de viver

Um sorriso ainda ver

Um abraço a envolver

São afetos


Que delícia de viver

Sol vem me transpassar

Um convite feito está

Existir junto


Que delícia de viver

Tanta coisa vive à ser

Muito tenho a escrever

Poemando


(Jonathan Julio)
30, jan. 2020

EU-POETA-SACI

Eu escrevo para viver E viverei até depois da morte Pela vida de minhas palavras Que nunca esgotam os seus sentidos Eu sou um poeta atrevido...