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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

JOKER, PSICOPATOLOGIA E CULTURA


Mais um daqueles filmes que dividem opiniões e que deixam as pessoas em estado de angústia por não saberem se é "isso ou aquilo" a causa de determinados comportamentos.

Fui assistir ao tão falado filme "Joker" (coringa). Assisti legendado. Simplesmente adorei tudo o que vi naquela telona. Passarei a resenhar minhas impressões do filme fazendo ganchos com minha área de atuação profissional, a saúde mental.


Na minha opinião, Joker foi feito para gerar ambiguidade de ideias e sentimentos em quem assiste. Não se trata de uma narrativa de exclusão, mas sim, de inclusão de perspectivas, fatos e olhares sobre o personagem Arthur Fleck na construção de seu próprio opersonagem no filme - o Joker. O filme brinca com a díade vilão-mocinho - me fez recordar a narrativa do filme malévola, embora sejam conceitualmente diferentes - mostrando que essas polarizações fazem mais sentido dentro de um continuum onde os personagens podem oscilar em graus diferentes entre uma coisa e outra o tempo todo. Esta é uma forma de abordagem dos fatos que permite uma flexibilidade narrativa e uma ampliação do discurso para além da moralidade e juízo de valor que o espectador naturalmente faz.

Das coisas que mais me chamaram a atenção, ressalto a presença do sofrimento humano como plano de fundo das ações e interações entre os personagens. Uma vez ouvi uma frase que dizia: "ninguém é mau a toa". Existe um significado por trás das emoções e comportamentos.


DOENÇAS MENTAIS JUSTIFICANDO CRIMES?

Não mesmo! A tônica do filme não me parece estar na culpabilização da sociedade pelo que se tornou o Joker e, nem mesmo na justificação dos crimes do personagem com a história de sua doença mental como "desculpa". Não podemos ser simplistas no entendimento de situações complexas.


A narrativa crítica da historicidade dos fatos que modelam o comportamento de joker e da sociedade a que ele pertence, demonstram uma cadeia de reproduções de crenças e comportamentos dos quais somos incapazes de, precisamente, apontar seu início ou fim, culpado ou vítima.

Então ninguém tem culpa pelos seus atos? Eu diria que cada ser humano é responsável, em menor ou maior grau, pelo que faz, porém, sempre, compartilha esta responsabilidade com outros - contemporâneos ou antepassados.


No filme, podemos observar uma espécie de "reatribuição de responsabilidades", ou seja, uma análise de quem fez o que, e de qual o efeito a ação que cada um executou teve para si e para o outro.


O filme mostra que Arthur foi vítima de vários tipos de violências desde sua infância - e por esse motivo, sofreu lesão cerebral ainda criança - até a fase adulta. Tinha histórico familiar, materno, de doença mental grave. Desenvolveu uma psicopatologia com substrato orgânico significativo. E teve como fonte da modelagem de seu repertório comportamental violento - e exacerbado pela psicopatologia - a cultura a que pertencia.



PSICOPATOLOGIA E CULTURA

O filme faz referências a um transtorno mental no personagem Arthur - falarei especificamente disso em outro texto. Ao mesmo tempo faz críticas a maneira como socialmente ele é tratado por ter uma doença - como se isso dependesse da vontade onipotente humana. "A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse".


Dalgalarrondo (2019), em sua obra "Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais", valoriza a importância da cultura e dos processos sociais na experiência subjetiva e interpessoal, que são naturais aos transtornos mentais. Isso significa dizer que, a cultura e os processos sociais que nela se desenvolvem, organizam, influenciam e até criam novos significados aos transtornos mentais.


Estes significados, socialmente construídos e compartilhados, interferem também no cuidado da pessoa portadora de uma doença mental. Em uma das primeiras cenas Arthur provoca a profissional que estava cuidando dele sobre sua postura em relação a ele. Ele reivindica sua condição de pessoa, que não se resume a uma doença, quando fala algo próximo disso: - “Você não escuta o que eu digo. Sempre pergunta como eu me sinto, se tenho pensamentos ruins. Eu sempre tenho pensamentos ruins. Sempre me senti como se não existisse. Você não me ouve”. Na cena em questão, ele relata algo bastante significativo para ele. O filme denuncia um olhar estigmatizado para a doença mental.


RESUMINDO E INSTIGANDO

O filme Joker é uma daquelas super produções feitas para mexer com as emoções e opiniões do público. Narra de forma crítica a história do personagem Arthur Fleck e sua construção enquanto Joker. Valoriza nas cenas os processos sociais e culturais e, demonstra como estes influenciam a experiência subjetiva e interpessoal em relação à doença mental. Eu achei muito bom!


REFERÊNCIAS

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2019. 3ª ed.
(Jonathan Julio)

*Para quem não sabe, eu sou Psicólogo Especialista (CRP 05/52743). Saiba mais aqui!

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Eu escrevo para viver E viverei até depois da morte Pela vida de minhas palavras Que nunca esgotam os seus sentidos Eu sou um poeta atrevido...